Hospitalizados Vidas suspensas

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Socorro abriu mão de tudo para ficar com o marido internado, há um ano, na Santa Casa
FOTO: WALESKA SANTIAGO
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Vânia mora no IJF há dois anos. Abandonada pela família, só conta com apoio de pessoas, como a assistente social Maria José e a enfermeira Ivana Cleide
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Francisco sofreu acidente de moto, já passou por cirurgia e espera outra. Graças à amiga, Jocélia, que largou o emprego para ficar com ele, tem apoio enquanto está no IJF
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Sirley sofre com o braço esquerdo e com a perda de dois dentes. Natural de Aracati, ele diz que os 23 dias internado mostraram que a vida merece respeito e a saúde é um bem precioso
O desafio de quem precisa ficar internado e ter o seu cotidiano familiar, social e profissional recortado  Nas fotos coladas na parede da enfermaria 47 da Santa Casa de Misericórdia, lembranças de momentos em família, alegrias e viagens pelo mundo afora. Cenas guardadas na memória da dona de casa Maria do Socorro de Queiroz Harenzer e rememoradas todos os dias como inspiração e força para continuar ao lado do marido Louis Jean.
Ele está internado há um ano e quatro meses com demência degenerativa e enquanto permanecer hospitalizado, Maria não sairá de seu lado. Abandonou casa, filha, amigos, a vida exterior e representa a grande maioria de pessoas que, por doença ou devido à violência urbana, é obrigada a permanecer nas unidade de saúde por tempo indeterminado. Alguns pacientes, como no caso de Louis Jean, contam com essa presença constante dos companheiros ou familiares, outros são simplesmente solitários ou abandonados à própria sorte.
"A vida ficou suspensa", afirmam todos. Maria do Socorro, por exemplo, diz que perdeu a noção até dos cheiros da vida fora do hospital. "Os aromas aqui dentro são diferentes, assim como os barulhos e o silêncio", frisa.
Depois de 45 dias fechado entre as paredes do Instituto José Frota (IJF), o casal Jackson e Maria Auxiliadora Nascimento, tem pouco a falar. Distante do mundo e das duas filhas, numa vivência tão impessoal quanto se possa imaginar com as pessoas que chegam e vão embora, além do vai e vem da equipe médica, sujeito aos horários dos medicamentos e ao compasso do ping-ping do soro, ele só pensa em receber alta. Sem previsão de acontecer. Vítima de acidente de moto, em março passado, Jackson, que é barman, sobrevive com a ajuda dos colegas de trabalho, enquanto aguarda a liberação do auxílio-doença do INSS.
Na mesma enfermaria e outra vítima do trânsito, Francisco Sirley Valente, 28 anos, enfrenta dias de espera e solidão. Na cabeceira da cama, um livro de autoajuda oferece dicas de sobrevivência. "São estes momentos que nos fazem pensar o valor da vida, da saúde, do bem-estar e do conforto da família e amigos. Não sei se a vida tem muito ou pouco valor, mas sei que a saúde é a maior riqueza que se tem".
Sem noção das horas, envolvidos pelo mau estar, dores e gritos dos outros internos, pacientes e acompanhantes têm sonhos em comum: voltar a respirar o ar das ruas, o cheiro da liberdade e se agarrar a vida. Assim, por enquanto, a paciência é algo precioso e fundamental para quem espera.
Se eles sofrem, quem trabalha nos hospitais também. Médicos, enfermeiros, assistentes sociais, auxiliares, psicólogos e atendentes convivem com o estresse, desconforto e dramas diários. Para a assistente social do IJF Maria José Moreira, o acolhimento ao paciente, à família e aos acompanhantes é fundamental. "A gente é rodeado por isso o dia inteiro e anos a fio. Não tem como não se envolver ou se emocionar", confessa.
A enfermeira Ivana Cleide diz que o equilíbrio e o bom-humor fazem a diferença para combater a tristeza que toma conta do doente e para não se deixar abater. "Às vezes, a emoção chega ao limite e é preciso esforço para não permitir a piora física do internado".

FIQUE POR DENTRO
Fé e paciência  Vânia, Francisco e Sirley. Três histórias de vida, dor e esperança. Internados no Frotão, eles aguardam a cura do físico para retomar o cotidiano fora das quatro paredes do hospital.
Dos três, Vânia é a que menos tem essa expectativa. Aliás, seu drama comove não só a equipe multidisciplinar, como também aos outros pacientes, acompanhantes e visitantes. Vive na unidade 18 há dois anos, depois de ser atropelada na Av. Leste Oeste, sofrer traumatismo craniano, ficar em coma por seis meses e ficar paralítica. Não tem família e vive de doações e dos cuidados de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos.
Francisco tem a ajuda da amiga Jocélia e da internet enquanto aguarda a segunda cirurgia da perna. Sirley, sem acompanhante, busca em livros de autoajuda força para vencer a solidão e os dias de espera para receber alta.
LÊDA GONÇALVES REPÓRTER Fonte, DN

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